Vayêshev

Vayêshev Gênesis 37:1-40:23

Edgard Leite

A história de José, filho de Israel, é uma das mais complexas da Torá. 

Entre as suas diversas mensagens está a visão de Deus sobre a inveja, a vaidade, e sua realidade entre os humanos.

E uma reflexão sobre o reconhecimento do próximo e a presença de Deus.

Na Torá os seres humanos não são iguais. Cada um possui seu próprio brilho. 

De fato, todos os filhos de Israel, os patriarcas das doze tribos, eram representados por pedras diferentes no peitoral envergado pelo Sumo-sacerdote. 

Isso mostrava que cada um possuía uma preciosidade específica e que, juntos, representavam o sagrado universo de diferenças da condição humana. 

Aquilo que é próprio ao ser é, portanto, único. 

No entanto, não poucas vezes, tal unicidade é entendida, por aquele que tal unicidade possui, que são todos, como superior ao brilho dos demais. E todos são iguais nessa tendência. 

A questão é que, ao reconhecer a grandeza do outro, reconhece-se a grandeza de Deus. Ao ouvir o outro, e admirá-lo, admira-se a grandeza divina que dá a vida ao ser, com sua especificidade.

Por isso o outro deve ser sempre maior. Porque é. Todos os outros são maiores que nós, pois tem coisas que não temos e são únicas.

É certo que o brilho dos homens é próprio, mas assim também suas misérias. E, nessa intimidade, cabem tanto momentos de luz quanto de escuridão. 

Por isso a Torá é guia ético e moral. Nos ensina a não olharmos a nós mesmos como maiores naquilo que não o somos. A reconhecer nossa grandeza, mas também, e principalmente, a do outro.

José, possuía, como todos, características únicas. No caso dele, elas eram tão interessantes que se tornaram invejáveis aos seus irmãos. 

Principalmente por que não olhavam e valorizavam bem seus próprios dons, é claro. Pois se os percebessem, não invejariam, mas admirariam aquela extraordinária personalidade.

Na Torá, aos olhos de Deus, os humanos são estranhamente presos às coisas superficiais do mundo. 

Sendo José amado por seu pai “mais do que a todos os seus filhos” (Gn 37:5) e sendo “formoso de porte e de semblante” (Gn 39:6), é compreensível que seus irmãos, ao invés de sentirem admiração por isso, sentissem inveja, por não serem assim.

Mas os paradoxos do humano são conhecidos por Deus. 

Judá, que depois proporá que José não deveria ser morto, e sim vendido, “que proveito haverá que matemos a nosso irmão? Vinde e vendamo-lo a estes ismaelitas” (Gn 37: 26-27), é um homem de honra.

Ele tem a humildade de reconhecer a paternidade de sua linhagem, que tinha sido por ele mesmo negada a Tamar: “mais justa é ela do que eu” (Gn 38:26).

As grandezas de cada homem, no entanto, são obscurecidas pela inveja, cuja fonte é a vaidade. Ou seja a ideia de que meu dom, por ser único, é maior que o dos outros.

Assim, os irmãos se desesperam, quando José lhes conta, de forma muito ingênua, muito sincera, seus sonhos.

No primeiro, durante a colheita, conta José, estavam ele e os irmãos atando feixes. O seu feixe então se erguia e todos os outros feixes, dos irmãos, de inclinavam diante dele (Gn 37:7).

No segundo, “eis que o sol, e a lua, e onze estrelas se inclinavam a mim” (Gn 37:9). Disse-lhe Jacó: “Que sonho é este que tiveste? Porventura viremos, eu e tua mãe, e teus irmãos, a inclinarmos perante ti em terra?” (Gn 37:10).

E, por isso, os onze irmãos conspiram para matá-lo. Apenas a intervenção de Ruben e Judá permitiu que escapasse, vivo. Embora tenha sido vendido e levado à escravidão, no Egito.

Mas José, embora tivesse esse dom de sonhar e interpretar sonhos, mais precisamente uma clarividência profética, e esse destemor diante de si mesmo, era um homem humilde e simples. 

Ele reconhecia a grandeza do próximo, e era capaz de se curvar diante do brilho alheio, dom de Deus. Percebia com muita clareza a realidade. Essa era uma de suas maiores virtudes.

Assim, tornou-se escravo de Potifar. E, logo, mais que escravo. Potifar reconheceu imediatamente que estava diante de um ser humano notável e lhe deu toda liberdade para gerenciar seus bens.

No reconhecimento das grandezas alheias se encontra a presença de Deus, pois Deus fala através dos dons. Portanto, entre ambos tornou-se clara a presença de Deus.

“Vendo pois, o seu senhor, que Deus estava com ele, e tudo o que fazia Deus prosperava em sua mão” (Gn 39:3), “aconteceu que desde que o pusera sobre a sua casa e sobre tudo o que tinha, o Senhor abençoou a casa do egípcio por amor de José, e a benção de Deus foi sobre tudo o que tinha, na casa e no campo” (Gn 39:5).

A escravidão é, portanto, e de forma paradoxal, redenção para José. Potifar o reconhece, e José o reconhece na mesma medida. Dá-se essa sutil experiência do reconhecimento, que é reveladora.

A presença de Deus, antes turvada pela inveja dos seus irmãos, pela sua vaidade, se realiza, no amor, nas propriedades do mestre Potifar, nesse reconhecimento mútuo.

A Torá também nos mostra como a sede do poder, do prazer e a cegueira diante do outro, e, novamente, a vaidade, destroem o reconhecimento. 

E por isso a surpreendente atitude da mulher de Potifar. Ela não reconheceu José, não percebeu sua integridade. No entanto, viu seus dons não como algo a ser destruído, mas sim como algo a ser possuído.

Ante a recusa de José em dormir com ela, ela o acusa de assédio e pretende, igualmente, a sua morte. Entende que o belo, não sendo dela, deve ser destruído. 

Há uma curiosa antinomia entre os irmãos de José e a esposa de Potifar. Uns agem por ódio, outra por amor: mas ambos tomados de vaidade e inveja.

A mesma força humana destruidora do outro e da presença de Deus se insinuou novamente na vida de José, portanto. Acusado injustamente, José é preso.

Mas a situação se repete: a prisão é novamente redenção. José aceita sua condição de preso, reconhece, e o Carcereiro-mor o reconhece em troca. Entrega-lhe a administração da cadeia e ”e ele ordenava tudo que se fazia ali” (Gn 39:22).

“Deus estava com ele, e tudo o que fazia, Deus prosperava” (Gn 39:23). José, aceitando e reconhecendo, se torna um realizador eficiente, talvez porque tenha uma visão muito transparente da realidade dos homens.

E, assim, conhece o padeiro e o copeiro do Faraó. Ambos tinham sido presos.

À noite, eles sonharam. E José percebendo que estavam perturbados, quis saber de seus sonhos. E os interpretou.   

Para um, o padeiro, disse que seu sonho anunciava sua morte, em três dias. Para o outro, o copeiro, sua redenção, também em três dias: retornaria para o honroso cargo que ocupava, junto ao Faraó.

De fato, assim ocorreu. O padeiro foi enforcado e o copeiro retornou às suas funções normais. Mas o copeiro “não se lembrou de José, antes, se esqueceu dele” (Gn 40:23).

De fato, José tinha pedido a ele: “lembra-se de mim, quando se for bem, e rogo-te que uses comigo de compaixão e que faças menção de mim ao faraó, e faze-me sair dessa casa” (Gn 40:14).

José tinha pedido apenas o reconhecimento. Um dos elementos pelo qual a presença de Deus se instala entre os homens e realiza suas maravilhas. 

o filosofo alemão Georg Friedrich Hegel pode ser considerado um dos pais da teoria do reconhecimento, que assegura que processo pelo qual reconhecemos e somos reconhecidos é essencial para a realização da humanidade.

Mas, como em infindáveis coisas que parecem ser novidades, na Torá, nos diálogos de José com as pessoas está delineado o papel central do reconhecimento como elemento que permite não apenas a superação da vaidade e da inveja, mas o encontro com Deus, com a eternidade.

Através do encontro do ser com o brilho singular do outro ser.

1 / 1

Please reload

© 2017 Grande Templo Israelita do Rio de Janeiro

  • facebook-square