Nôach

Nôach

Edgard Leite

Os antigos tinham mais intimidade com a leitura da Torá, do que temos hoje. Não necessariamente porque a liam mais, pois não havia imprensa e os exemplares eram poucos. Mas porque, quando a liam, entendiam-na no que é, ou seja, como a palavra de Deus. Tudo o que isso significa levavam, portanto, em consideração.

Aproximavam-se dela com extrema reverência e temor. Tudo que liam nela era corretamente entendido como emanando não de lugares deste mundo, mas sim de um outro mundo. De uma outra realidade. Tudo que ali estava escrito vinha de uma dimensão eterna, infinita.

A recuperação desse encantamento, dessa maravilha que é a palavra de Deus, permite superar a distância com que muitos hoje se aproximam da Torá. Permite-nos tornarmos, novamente, íntimos dela. Próximos a Deus, pois a Torá é a conexão visível, concreta, entre nós e o Eterno.

O homem que a escreveu, Moisés, estabeleceu um diálogo único com o Absoluto. E nesse diálogo há um mistério.

 

Deus, que é Eterno e infinito, para o qual não existe antes, depois, durante, juventude, velhice ou morte, precisou abrir um caminho para este mundo, onde tudo é limitado, parcial, e aonde existe o tempo. E nessas condições dialogou com Moisés.

Mas se Deus fala neste mundo de coisas transitórias com os elementos de transitoriedade, evidentemente que não deixa de ser Aquele que É. Toda ação e narrativa divinas, toda mitzvá que ordena, continha, e contêm, atrás de si, uma configuração infinita de sentidos. 

Por isso Maimônides, no Guia dos Perplexos, disse que a Torá tinha níveis de entendimento. O superficial, o literal, era moral. O bom e o mal. O oculto era o ético. O certo e o errado.

O primeiro dizia respeito às partes, ao transitório, o segundo ao Todo. O que é o Todo é matéria de reflexão infinita, porque infinito é Deus e os sentidos do que diz não tem tempo, nem princípio, nem termo.

Esses sentidos repousam no inconcebível universo sem tempo do Eterno. E por isso a superfície moral do texto contêm muitos sentidos ocultos, associados entre si e com outros sentidos. Pois em Deus há infinita integração de sentidos.

Assim, quando Moisés nos conta a história da tragédia que aconteceu muitos anos antes de seu nascimento, o Dilúvio, ele não o faz como historiador, como memorialista ou como biólogo ou geólogo. Ele registra a visão de Deus, que conversou com ele face a face, sobre os acontecimentos neste mundo.

Pois a Torá expressa os acontecimentos do mundo, ou os acontecimentos que devem ter lugar entre os humanos, vistos pelo olhar de Deus. O que suscita sempre, no leitor, uma sensação de estranheza. Pois percebe que está se falando das coisas do mundo mas com um olhar que é externo ao mundo. O olhar de Deus.

O Dilúvio, assim, esse acontecimento trágico de destruição e morte, que surge de “ser mau todo desígnio do coração” humano (6:6), não é apenas um momento no tempo, mas um evento de significado transcendente, essencial, expressão de uma realidade na qual, na percepção de Deus, afundam os homens em seus pecados e dores. 

E Deus sinaliza, a Moisés, que a vida do ser humano, dos seres humanos justos, nesse universo de paixões, só pode ser salva se submetida às medidas precisas de uma arca. 

Medidas que não delineiam apenas um objeto material, mas também imaterial. Pois tendo dimensões precisas, abarca em si inumeráveis formas de vida. Mas Deus assim narra, para o mundo dos limites, suas motivações ilimitadas.

E tais medidas também apontam a necessidade de regras, de observâncias. De precisão na Justiça e como, sendo precisa, também é ampla, na recepção das demandas por vida de todos os seres viventes.

É particularmente relevante que a parashá Noah fale, principalmente, da Aliança. Da Aliança que Deus estabelece com o ser humano: “convosco e com todos os descendentes depois de vós” (9:9), e dessa maneira ele põe  “um arco na nuvem”, como “sinal da Aliança entre mim e a terra” (9:13).

Mas fica claro que Deus não esgota sua mensagem salvífica apenas na narrativa de seu ato redentor da humanidade e dos seres viventes. A descendência de Noé culmina em Abrão. E a partir daqui, sabe-se que há, na narrativa divina, uma outra aliança em sua mente. Uma aliança específica dentro de uma outra aliança.

A salvação dos homens e da vida, é dada pelas justas medidas de uma arca. Mas existe em Noé o prenúncio, ou a realidade misteriosa, de uma outra arca. A arca pela qual o povo de Israel é salvo, do pecado e da dor, também pelas suas justas medidas: a Arca da Aliança.

E assim, para além do tempo, e das fragmentações, a Torá narra o poder redentor divino, e um objetivo mais profundo da maravilhosa aliança que será celebrada pelos descendentes de Abrãao com Deus: a salvação do povo judeu do mar tempestuoso de seus pecados e dores.

Ali, em Nôach, a potência salvadora de Deus expressava, na imagem de uma arca, a sua inspiração amorosa, protetora e redentora.

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