Mikêts

Gênesis 41:1-44:17

Edgard Leite

O Faraó, uma noite, teve um sonho perturbador: sete vacas gordas eram devoradas por sete vacas magras. Em seguida, em outra noite, sonhou que sete espigas gordas eram devoradas por sete espigas magras.

Alertado por seu copeiro que um intérprete de sonhos existia, “mandou o Faraó chamar a José, e o fizeram sair logo do cárcere, e barbeou-se e mudou as suas roupas e apresentou-se ao Faraó” (Gn 41:14)

José faz a interpretação correta: sete anos de fartura serão seguidos por sete anos de fome. E sugere um plano pelo qual parte das riquezas do Egito poderão ser reservadas e servir para o período de escassez.

De onde vinha essa clareza na visão do mundo? Para o Faraó era claro “que Deus te fez saber tudo isto” (Gn 41:39). 

Tinha em mente aquele fenômeno que está no texto sagrado: ”Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento” (Pv 2:6).

A percepção de José, entendimento de Deus, era, nesse caso, a visão dos ciclos da existência, dos altos e baixos da vida, dos momentos de grandeza e de fracasso, de vida e morte, de abundância e fome, como está no Eclesiastes:

“Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr” (Ec 1:5-7).

Donde o aforismo bíblico, cuja essência está na sabedoria que advém de Deus:

“Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós”. (Ec 1:10) 

E, de fato, a vida de José era assim. Um microcosmo da lógica maior do tempo e da história. Um contínuo ir e vir. 

Da grandeza de ser filho preferido ao fundo de um poço. Da condição de homem livre à de escravo. De escravo a administrador. De administrador a prisioneiro. De reconhecido intérprete de sonhos a prisioneiro esquecido. De anônimo a Vizir.

Os textos sagrados são claros: “O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração” (Pv 18:2).

José não era tolo. A sabedoria lhe vinha a partir de situações desafiadoras, colocadas a ele pela vida, por Deus. A vida não lhe era agradável. Tudo estava fora das suas expectativas. 

Mas os detalhes, as sutilezas da existência, a aceitação da realidade do mundo dava-lhe o prazer da sabedoria. Nunca José reagiu com hostilidade diante das provações. sempre aceitou o que ocorria com uma tensão de quem busca entender como Deus desenha a vida e o mundo.

E, de fato, a aceitação de tudo, e a percepção de que tudo vem e vai, lhe deu vida, porque a sabedoria é vida. Presença de Deus. 

Ali, parado diante do Faraó e expondo a sabedoria da vida, José tem uma nova transformação. Ele aceita o Egito.

Ele se torna egípcio. Recebe um anel de poder e se casa com a filha de um sacerdote. Passa a administrar, com sucesso, as finanças do Reino.

Mas não é incomum que as pessoas entendam essa jornada de José como uma jornada política. Na verdade, há outros níveis de entendimento em José. Muitos. Um deles é íntimo. Tem a ver com os ciclos das afetividades e dos rancores.

“E nasceram dois filhos”… “E chamou José ao primogênito Manassés, porque disse: Deus me fez esquecer de todo meu trabalho, e de toda a casa de meu pai. E ao segundo chamou Efraim, porque disse: Deus me fez crescer na terra da minha aflição” (Gn 41: 50-52)

Deus me fez esquecer, e então me fez crescer. No esquecimento do passado repousa o crescimento no presente. Nada advém de bom quando nos atamos aos desconhecimentos a nós dirigidos em momentos desaparecidos. 

O tema da aceitação se estende à aceitação de nossas jornadas interiores, àquilo que nos torna o que somos hoje, em um outro tempo interior, um outro mundo gerado por outras realidades, que não “nos agradaram o coração”.

A prosperidade do Egito, administrado por José, advém do reconhecimento de ciclos, da aceitação de realidades, do equilíbrio diante das adversidades. Ele economiza riquezas no período das vacas gordas, para utilizá-las no período das vacas magras.

A sua prosperidade interior advém dos mesmos elementos: Reconhecimento, aceitação da realidade, cautela, prudência e equilíbrio. Essa é sabedoria de Deus.

Assim, quando seus irmãos apareceram no Egito, anos depois, estava preparado para outros ciclos e momentos da vida:

“José, pois, reconheceu os seus irmãos, mas eles não o reconheceram” (Gn 42:8)

Pois isso seus irmãos se afastam da sabedoria. 

Mas a capacidade de reconhecer, entender e aceitar aproximava José da sabedoria, e o unia a Deus. 

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