Chayê Sara

Chayê Sara (Gênesis 23:1-25:18)

Edgard Leite

A Torá possui muitos níveis narrativos. Podem ser paralelos entre si, escalonados, embora também se encontrem uns com outros em inumeráveis pontos. O texto possui infinitas narrativas invisíveis. 

Isso é claro nessa porção da Torá, onde as narrativas ocultas apontam para um local que é tanto dentro da própria narrativa, no texto em si, quanto fora dela, no mundo fora do texto.

No Zohar, em toda essa passagem, que envolve duas mulheres, Sara e Rebeca, é percebida a trama das sefirot.

Mas também há outras tramas. Podemos encontrar duas narrativas subterrâneas ao texto aparente. Ambas apontam para o futuro.

A primeira é o pedido de Abraão ao servo para que encontre uma mulher, “na sua parentela” (Gn 24:4), para seu filho Isaac. E seu desejo de que Isaac não retorne para o local de onde ele veio, para sua origem.

“Guarda-te, que não faças lá tornar o meu filho” (Gn 24:8)

O abandono dessa origem, como anotamos anteriormente, está ligado ao deslocamento do seu clã para a terra prometida. E é para onde todos devem ir. Nunca retornar. Não há retorno para os desígnios de Deus. Ou no caminho da redenção.

Abrãao profetiza um encontro contido na vontade de Deus: o do servo com Rebeca à beira de uma fonte.

De fato, esse encontro se realiza. Porque, na jornada que o servo faz para a Mesopotâmia, ia “um anjo adiante de sua face” (Gn 24:7). 

Lá chegando, o servo viu Rebeca, “com o seu cântaro sobre seu ombro” (Gn 24:15), “correu-lhe ao encontro e disse: Peço-te, deixa-me beber um pouco de água do teu cântaro. E ela disse: Bebe, meu senhor. E apressou-se e abaixou o seu cântaro sobre a sua mão e deu-lhe de beber” (Gn 24:17-18).

Aqui se realizou um encontro, no qual a água é o elemento vital que assinala a presença divina. A água, fonte essencial de vida, transparece como o elo pelo qual o espírito de Deus torna visível o sentido maior das relações humanas.

Ou seja, a própria vida.

“Eis que estou junto à fonte de água” (Gn 24:43), diz o servo, “e inclinando-me, adorei a Deus e bendisse a Deus” (Gn 24:48). 

De fato, mais tarde, será também diante de uma fonte que Moisés terá mais um momento na sua revelação.

Existe portanto uma narrativa divina, que diz respeito à construção de sentido na história do povo judeu. Um desígnio divino que constrói, de acordo com seus interesses, o caminho de uma genealogia. Abraão é portador dessa mensagem ao seu servo e as intenções divinas se realizam, segundo a profecia: 

“E Isaac saia a orar no campo, à tarde, e levantou seus olhos, e olhou, e eis que os camelos vinham” (Gn 24:63) “e tomou a Rebeca, e foi-lhe por mulher, e amou-a” (Gn 24:67).

Deus conduz a história humana pelos caminhos misteriosos do que se entende ser o acaso. Mas não o é. Toda a linhagem que levará às doze tribos de Israel se constrói, portanto, segundo um plano maior.

A narrativa genealógica da Torá é, assim, acompanhada pela ação divina, na qual interage com o sentimento poético humano, com a supresa humana diante do extraordinário, que nada mais é que o movimento de Deus. 

Esse encadeamento segue pela literatura bíblica, se desdobrando em novos eventos.

A segunda narrativa é a da morte de Sara: “Veio Abrãao lamentar Sara e chorar por ela” (Gn 23:2). Na sua tristeza, Abraão decide-se por comprar a sepultura de sua esposa.  

Todos pretendem dar-lhe a sepultura. Mas Abraão, num ato profético, insiste na compra. Há uma longa discussão sobre o assunto. Preferiam, os proprietários, dar o local do sepultamento. Mas Abraão, visionário, persiste na proposta de adquiri-la. 

E, afinal, por “quatrocentos siclos de prata” (Gn 23:15), a adquire. 

E assim “o seu campo e a gruta que ali está e todas as árvores que estão no seu campo, em seu limite, passaram a ser propriedade de Abraão.” (Gn 23: 17-18). “Em seguida Abrão enterrou Sara, sua mulher, na gruta do campo de Macpela, defronte de Mambré, que é Hebron, na terra de Canaã” (Gn 23:19).

Essa narrativa aponta para o texto bíblico, adiante: em Hebrom será ungido o rei David (2Sm 2:4), antepassado do Messias. No local onde foi sepultada a sua ancestral.

E essa compra, primeiro ato de propriedade legítima em Canaã, tornou algo real, concreto, isto é, a tumba de Sara em Hebrom, referencia objetiva, não literária, da primeira propriedade legítima na terra prometida. 

É tanto representação de um espaço geográfico e concreto, quanto de uma inflexão espiritual. Estabelece a impossibilidade de renúncia ao projeto de Salvação. Não há retorno à origem, mais. Canaã é o espaço físico da redenção.

O texto bíblico aponta, portanto, para além de si próprio, para além do tempo bíblico, para o concreto do tempo humano. 

Ainda em Hebron se disputa a legitimidade dessa posse e a grandeza dessa história. Ali vemos a Torá transformada em experiência sensível, repleta de humanidade e tempo.

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