Vayetse

Vayetse (Gênesis 28:10-32:3)

Edgard Leite

Ao contrário de seu pai, Jacó retornou às suas origens. À sua parentela. Esse movimento é estranho, porque significa se enredar em regras profanas, em áreas desconhecidas, próprias do humano e desprovidas do Espírito de Deus. 

Se aproximar de coisas que já estavam distantes. Em abandonar o espaço de elevação e de aproximação ao Eterno, no qual estava.

O movimento da alma, em Jacó, é o de voltar para tornar a ir, certamente. O de sair da terra prometida, da redenção, se dirigir ao mundo, experimentar os prazeres e as dores da realidade, e depois voltar para o espaço da salvação.

Durante o caminho para onde vivia o seu tio Labão, dormiu sobre o monte sagrado. E, ali, teve um sonho: “e uma escada posta na terra, cujo topo tocava os céus, e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela” (Gn 28:12).

E imerso em sonho, viu que Deus estava ali, ao seu lado.

A luz nunca o abandonou, de fato, mesmo na escuridão da realidade - tão repleta de vaidades. “Vaidade, tudo é vaidade”, fugacidade, ilusão, sopro de nada, diz o Eclesiastes (Ec 1:1). 

E Jacó se desloca, entre o sono e a vigília, ao longo da realidade das coisas: olhos ternos, belezas singulares, sentimentos de propriedade, egoísmos, mentiras, prazeres sensuais e riquezas.  Vaidades.

Seu tio, Labão, julga capturá-lo nessa existência de valores relativos, por conta de uma mulher, Raquel.

Por ela ele gravita ao longo do tempo, por sete longos anos. Para te-la apenas. Porque a amava muito, além da conta. 

Ele a conheceu, mais uma vez, como em outros encontros na Torá, diante de um poço de águas puras, quando removeu a pedra que o cobria “para dar de beber às ovelhas” (Gn 29:10). 

A água é a presença divina, da vida.

E a amou porque ela era de “formoso semblante e formosa à vista” (Gn 29:17).

E, ao contrário do prometido, numa outra inversão da história de seu pai, para o qual o acertado teve valor, ele não a consegue. Apesar de acertado. Mas sim apenas sua irmã, Lia. 

Não há claros compromissos num mundo de vaidades. As razões dos homens são pessoais e ocultas e escapam aos outros homens, pois repousam nas áreas sombrias das intenções.

Labão resgatou uma regra que omitira antes. Dão-se sempre como esposas as mais velhas.

Como seu pai, no entanto, Jacó aceita tudo. Mas ele aceita porque tem a consciência da busca do sagrado. Sempre. Assim, se desloca de forma contínua entre o mundo dos sonhos, o de Deus, e este mundo. Vendo Deus, sempre, no mundo.

Jacó se move como se se deslocasse, para cima e para baixo, numa escada que unisse o mundo da redenção a este mundo de vaidades. Seu objetivo é Raquel, e o é por entende-la “formosa”, isto é, fisicamente linda, mas também o é por ter sido esta a determinação de seu pai Isaac, e vontade de Deus.

Por qual das duas razões ele se move? Qual é a razão decisiva?

Jacó se movimenta pela segunda: é a palavra de Isaac a palavra de Deus.“Torna-te à tera dos teus pais, e à tua a parentela, e eu serei contigo” (Gn 31:3)

A beleza de Raquel é efêmera, aparente. O desejo que ela suscita é transitório. Mas o compromisso com Deus que está ali contido, naquele amor, é superior a tudo. Então não é por ela que serve a Labão por sete anos. Mas por Deus.

Assim, Jacó vive o mundo e Deus como tensão contínua. Muito mais inquieto que seu pai, guarda-se, no entanto, da entrega ao mundo. Não é a transitoriedade que busca, os seus deuses mortais, mas o retorno à terra prometida, que lhe foi dada por herança. Esta não é sopro de vento, mas Verdade.

Ele não se ilude com o mundo. Nada que ali exista pode move-lo de forma absoluta. Enxerga o mundo com a realidade e tamanho próprios do mundo.

E tem a Deus como a grandeza maior, que explica a ele a realidade. Subir por essa escada todo dia, toda hora, todo minuto, todo segundo e desce-la, sem se contaminar pelas ilusões da vaidade: assim caminha Jacó. 

E, por fim, quando chega em seu coração a vontade de Deus, retorna para sua terra de salvação, para a salvação de sua alma. E de seus descendentes. 

Mas a escada continua ali? Certamente, cotidianamente, por todos os dias e minutos e segundos da vida. 

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