Lech Lecha

Lech Lecha

Edgard Leite

Num momento obscuro, numa região distante, a Mesopotâmia, mais precisamente na arcaica cidade de Ur, a voz de Deus se insinuou na consciência de um mortal, Abrão.

Esse é um dos instantes mais graves e significativos da Torá e, provavelmente do Tanach: ”Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei” (Gn 12:1).

Deus, que é eterno, e que contém em si todos os tempos, atua dentro do tempo para dar início a uma transformação no rumo da existência humana. Cujo desenvolvimento e final Ele já sabe. E só Ele sabe, na verdade. 

Abrão aceita essa ordem, que contém em si uma promessa, “ à tua posteridade eu darei esta terra” (Gn 12:7), com muita convicção - como em todos os momentos futuros em que escutar uma determinação de Deus. 

É extraordinário que o faça, porque ao contrário de Noé, Deus pouco ou nada lhe explica. “A terra que te mostrarei” está em um lugar inicialmente desconhecido. Impreciso. Na direção do mar Mediterrâneo. 

Isso numa época em que as distâncias eram imensas e os perigos para atravessá-las inimagináveis.

Embora tenha pouca ou nenhuma informação, Abrão entende que aceitando essa ordem, sua consciência se transforma, seus horizontes de ampliam, seu universo interior se transforma. 

Pressente que a “terra que te mostrarei” é algo não apenas diferente, mas também superior, em qualidade, às planícies secas que se estendem entre o Tigre e o Eufrates, e que circundam a velhíssima cidade de Ur.

Mas que, além disso, há um mistério maior nessa terra, mistério que está além da capacidade humana de compreensão. Que é o enigma da herança, daquilo que será herdado pelo seus descendentes: uma terra sagrada.

Para quem lê, de forma reverente, o texto, está claro que há uma ligação entre as diversas narrativas da Torá, não apenas de encadeamento temporal, mas de compartilhamento de uma essência. 

Na imagem de Abrão e sua família deslocando-se por terras áridas na direção do poente, existe a mesma inspiração divina que convidou Noé a construir a Arca.

E que o oceano tempestuoso do dilúvio é como o deserto que o Patriarca atravessa com seus parentes.

E que o final, contido no movimento ordenado por Deus, como em todas suas ordenações, é a salvação da vida, ou da alma. A vivência da terra sagrada.

O filósofo judeu Philo de Alexandria (25 a.C- 50 d.C), entendeu dessa forma o deslocamento primordial de Abrão. “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai” era, para ele, representação da elevação da alma, de sua redenção.

“Porque ‘terra’ é o símbolo do corpo, ‘parentela’ dos sentidos e a ‘casa do teu pai’ da fala”. Na época de Philo, os judeus viviam na sua terra. Para ele, assim, a “terra prometida” era mais que um local específico no espaço, mas uma dimensão espiritual.

E, certamente, a jornada que inicia Abrão é, além de missão no mundo, uma jornada no Espírito. Com implicações imensas.

“Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Por ti serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12:3).

E quando Abrão se preocupa, pois não tem quem quem possa herdar essa terra sagrada, Deus o conduziu para fora “e disse: “Ergue os olhos para o céu e conta as estrelas, se as pode contar”, e acrescentou: “assim será tua posteridade” (Gn 15:4).

“Abrão creu em Deus, e lhe foi tido em conta de justiça” (Gn 15:6).

A Fé de Abrão, absoluta, simples e verdadeira, alcança assim a convicção de que estava diante de uma longa jornada pelo oceano tempestuoso da história, ele seus descendentes, numerosos como estrelas, na direção da Salvação.

E assim, com humildade, “Abrão caiu com face por terra” (Gn 17:3). E Deus estabeleceu uma aliança perpétua, “marcada na vossa carne” (Gn 17:13). 

E com ela em nossos corações avançamos sempre pelo tempo,  rumo à terra prometida e sagrada: a de Israel, delimitada por Deus, e àquela, em nossas almas, na qual habita o Espírito. 

No caminho da redenção, que é promessa divina. E diante da qual nos inclinamos e confiamos. Como Abraão.

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