Toledot

Toledot (Gênesis 25:19-28:9)

Edgard Leite

Isaac e a de Jacó são dois importantes protagonistas dessa parashá. Fala-se aqui das suas relações com as pessoas e com o mundo. Que na verdade são relações com Deus, já que nossas relações com as pessoas e o mundo são relações com Deus.

Como escreveu o salmista: 

“Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a tua mão sobre mim. Tal conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado que não o posso atingir. Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá”. Sl 139: 5-10 

Deus está presente em tudo e em todos os momentos e ações. E as relações que temos no mundo são, para além do limite do visível, relações com Deus. Tanto Isaac quanto Jacó tem a percepção disso.

Mas há diferentes sutilezas entre eles.

Para Isaac tudo é absoluta aceitação. Escutar a Deus é escutar aquilo que, no mundo, o aproxima dEle. Que o leva no caminho da redenção. 

Assim ele aceita as determinações de seu pai, aceita sua esposa, aceita o que a sua esposa diz, aceita as experiências sensíveis como realidades. Isaac é uma pessoa que confia.

Basicamente porque tem Fé, e acredita que tudo que lhe vem, vem por algum motivo. E esse motivo é a vontade de Deus. Por isso confia.

Aceitar é parte do processo pelo qual sua alma se liberta das dimensões menores da existência e se ergue lentamente para um patamar maior de percepção do mundo e de seu papel nele. E para isso é necessária a humildade.

Jacó é ligeiramente diferente, embora não contrário. 

Jacó não aceita, mas sua não aceitação tem parâmetros que são definidos por Deus, pela aceitação. 

Assim, ele aceita o caráter sagrado da primogenitura e a benção paterna, e as quer, rebelando-se contra uma situação inaceitável. Isto é, ser uma experiência tão sagrada patrimônio de um homem que não a aceita: Esaú.  

Porque diz o mesmo Salmo 139: 

“Acaso não odeio os que te odeiam, Senhor? E não detesto os que se revoltam contra ti? Tenho por eles ódio implacável! Considero-os inimigos meus!” (Sl 139:21-22)

Jacó aceita o significado da benção paterna, e a deseja para sua alma, utilizando, a seu favor, a aceitação paterna do mundo. Pois assim age Isaac: ele aceita o mundo como ele é, como ele aparece. Por isso, de forma inspirada, Jacó se veste como Esaú para obter esse benção sagrada. Há aqui uma sublime justificativa ética, para um ato que parece imoral, mas é moral, porque busca o sagrado. Lembremo-nos que Esaú é bruto, displicente e alheio a Deus.

A não aceitação de Jacó, é, na verdade, aceitação, dos mandamentos de Deus, da Fé de seu pai. 

Assim embora diferentes, ambas relações, de Isaac e Jacó, são de aceitação de Deus e do mundo.

Mas há outro tipo de relação com a realidade que é hostil ao mundo, pois parte da não aceitação. É a de Esaû.

Esaú volta-se para o mundo como um predador. A satisfação dos seus desejos é superior a qualquer aceitação. Despreza o sagrado da primogenitura, porque a sua fome de mundo é maior que sua fome de espírito. 

Ao contrário de seu pai, que ascende a Deus, e de seu irmão, que também ascende a Deus, Esaú se volta apenas para o seu desejo. 

Quando Esau chega, faminto e cansado, diz Jacó, (para quem a primogenitura era espírito): “Vende-me hoje a tua primogenitura. E disse Esau: eis que estou a ponto de morrer, para que me servirá a primogenitura?” (Gn 25 :32)

“Assim desprezou Esau a sua primogenitura” diz a Torá (Gn 25:34). Desprezou, diz o texto, na primogenitura, a Deus.

Da mesma forma Esaú não lamenta a perda da benção porque desejava a Deus, mas sim por vaidade. Sua inconstância o torna imprevisível, inconsistente. Não há nele a certeza da confiança e da Fé. 

Essa parashá é uma visão de Deus sobre a realidade redentora da aceitação de Deus e de seus mandamentos. Da sua presença no mundo. 

Mais tarde Jacó insistirá diante de Esaú: " ‘Aceita, pois, o presente que te foi trazido, pois Deus tem sido favorável para comigo, e eu já tenho tudo o que necessito’. Jacó tanto insistiu que Esaú acabou aceitando” (Gn 33:11). Mas como foi difícil para Esaú aceitar.

Por isso a herança de Jacó é o povo hebreu. O desejo de cumprir as mitzvot delineia-se de forma sutil na alma do patriarca desde sua infância.

E por conta dessa aceitação é que a linhagem da percepção da grandeza do sagrado é transmitida e se desenvolve.

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