Estudos sobre a Torá

Vayishlach (Gênesis 32:4-36:43)

Edgard Leite

A Torá contém narrativas sobre o encontro entre pessoas e entre pessoas e Deus. Mas o encontro entre pessoas também é encontro entre pessoas e Deus.

Deus está presente em todos os diálogos, em todos movimentos dos seres humanos, descritos nos textos bíblicos.

De duas maneiras.

Primeiro, como intérprete, pois, sendo o texto a Sua palavra, a descrição das pessoas e seus atos é dada pelo Seu olhar. 

Ele conhece os seres humanos antes de existirem neste mundo: “antes que eu te formasse no ventre te conheci” (Jr 1:5). Esse conhecimento é percepção da plenitude das suas almas, naturezas, realidades e destinos.

Deus compreende os atos humanos numa profundidade inimaginável. Pois sabe exatamente para onde eles levarão os seus autores. Para o pecado, para a santidade. Para os prazeres e horrores do mundo. Para as alegrias do Espírito, para a morte e para a eternidade.

Segundo, como presença viva nos sonhos e nas visões. E, de forma extremamente sutil, nos diálogos entre aqueles que se voltam para Deus. 

Pois Deus fala para os homens através de outros homens. Através da consciência humana.

Os movimentos existentes nos encontros são, para os seres humanos, aleatórios. Mas para Deus são parte de uma infinita rede de onisciência, onipotência e onipresença através da qual tudo acontece.

Por isso disse o Rei David diante do povo de Israel: “Tanto riquezas como honra vêm de ti, tu dominas sobre tudo, e na tua mão há força e poder; na tua mão está o engrandecer e o dar força a tudo” (1Cr 29:12).  

Em todo momento vital existe a absoluta presença de Deus.

Por isso, é o encontro de Jacó com Deus algo íntimo, central, absolutamente absorvente. Porque é na intimidade que ele percebe toda a dimensão de sua trajetória de vida. Todo o sofrimento de sua busca pela percepção da diferença entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Busca pelo amor, pelo entendimento e pelo Sagrado.

Assim, ao retornar à sua terra natal com suas esposas e filhos, Jacó é tomado de “grande medo e sentiu-se angustiado” (Gn 32:8). E pede a Deus: “livra-me da mão de meu irmão Esaú, pois tenho medo dele, para que não venha matar-nos” (Gn 32:12).

Tinha razão para isso, pois tirara-lhe, de forma sucessiva, a primogenitura e a benção paterna.

Dessa maneira, preparou presentes para pacificar o espírito de seu irmão, e os enviou na frente. 

Chegou, por fim, às margens do rio Jabok.

Atravessou-o, durante a noite, junto com suas duas mulheres, suas duas servas e seus onze filhos e os mandou adiante. “E Jacó ficou só” (Gn 32:24).

Nessa solidão, temeroso, na escuridão da madrugada, Jacó teve um encontro místico. “E lutou com um homem até que a aurora subiu” (Gn 32:24).

“Vendo que não o dominava, tocou-lhe na articulação da coxa, e a coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele. Ele disse: ‘Deixa-me ir, pois já rompeu o dia’. Mas Jacó respondeu: ‘Eu não te deixarei se não me abençoares’. Ele lhe perguntou: ‘Qual o seu nome?’ ‘Jacó’, respondeu ele. Ele retomou: 'Não te chamarás mais Jacó, mas Israel, porque lutaste contra Deus e contra os homens, e prevaleceste’” (Gn 32: 25-29).

Esse é um dos momentos mais estranhos da Torá.

Aqui Deus trata do encontro de Jacó com ele mesmo, sua identidade. Mas também do encontro de Jacó com Deus, Aquele que lhe dá identidade. Jacó paira aqui no limite entre o mundo e o além mundo.

Deus, sob a forma de um ser celestial, inimaginável, tocado fisicamente no escuro, como num sonho, reconhece, de uma maneira própria do divino, a perseverança da Fé de Jacó, o valor da sua consciência. Porque altercou com Deus e com os homens e realizou sua integridade. 

Esteve sempre Jacó, como vimos, entre o alto e o pé da escada que une a terra ao Céu, e perseverou na sua humanidade e espírito.

“Jacó fez esta pergunta: ‘Revela-me seu nome, por favor’. Mas Ele respondeu: ‘Porque perguntas pelo meu nome?’” (Gn 32:30). 

Essa resposta, uma outra pergunta, sabemos porque a faz. Entre outras razões porque Seu nome sagrado será revelado, depois, a Moisés. “Qual o seu nome? Que direi”? Irá perguntar Moisés. ”Disse Deus a Moisés: Eu sou Aquele que É” (Ex 3: 13-14).

E Jacó pede, então, a benção de Deus. Sua maior ansiedade e desejo. O encontro com a glória do Divino, que o moveu a buscar a primogenitura e a benção paterna.

“E ali mesmo o abençoou” (Gn 32:30).

Caminhando, ao amanhecer, mancando, Jacó “erguendo os olhos” “viu que chegava Esaú” (Gn 33:1). Preparou-se, temeroso.

Mas Esaú, “correndo ao seu encontro, tomou-o em seus braços, arrojou-se-lhe ao pescoço e, chorando, o beijou” (Gn 33:4).

Jacó, afastando-se de seu irmão, “chegou em paz em Shechem” (Gn 33:18). O adjetivo shalem quer dizer, “em paz, seguro, completo”.

O que quer dizer que Jacó realizou-se como ser, ao se tornar Israel. Ao tomar consciência do sentido maior de sua busca e do significado de sua lealdade a Deus.

Em Shechem comprou, “por cem moedas de prata, a parcela do campo em que erguera sua tenda, e lá erigiu um altar, que chamou El, o Deus de Israel.” (Gn 33 19-20).

A experiência de Deus, que nos transforma a identidade, ou que torna consciente a realidade de nossa essência, se dá tanto pela Sua presença misteriosa, invisível e imprevisível, quanto pela relação estabelecida entre os homens, na busca da elevação e salvação de suas almas.

Vayetse (Gênesis 28:10-32:3)

Edgard Leite

Ao contrário de seu pai, Jacó retornou às suas origens. À sua parentela. Esse movimento é estranho, porque significa se enredar em regras profanas, em áreas desconhecidas, próprias do humano e desprovidas do Espírito de Deus. 

Se aproximar de coisas que já estavam distantes. Em abandonar o espaço de elevação e de aproximação ao Eterno, no qual estava.

O movimento da alma, em Jacó, é o de voltar para tornar a ir, certamente. O de sair da terra prometida, da redenção, se dirigir ao mundo, experimentar os prazeres e as dores da realidade, e depois voltar para o espaço da salvação.

Durante o caminho para onde vivia o seu tio Labão, dormiu sobre o monte sagrado. E, ali, teve um sonho: “e uma escada posta na terra, cujo topo tocava os céus, e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela” (Gn 28:12).

E imerso em sonho, viu que Deus estava ali, ao seu lado.

A luz nunca o abandonou, de fato, mesmo na escuridão da realidade - tão repleta de vaidades. “Vaidade, tudo é vaidade”, fugacidade, ilusão, sopro de nada, diz o Eclesiastes (Ec 1:1). 

E Jacó se desloca, entre o sono e a vigília, ao longo da realidade das coisas: olhos ternos, belezas singulares, sentimentos de propriedade, egoísmos, mentiras, prazeres sensuais e riquezas. Vaidades.

Seu tio, Labão, julga capturá-lo nessa existência de valores relativos, por conta de uma mulher, Raquel.

Por ela ele gravita ao longo do tempo, por sete longos anos. Para te-la apenas. Porque a amava muito, além da conta. 

Ele a conheceu, mais uma vez, como em outros encontros na Torá, diante de um poço de águas puras, quando removeu a pedra que o cobria “para dar de beber às ovelhas” (Gn 29:10). 

A água é a presença divina, da vida.

E a amou porque ela era de “formoso semblante e formosa à vista” (Gn 29:17).

E, ao contrário do prometido, numa outra inversão da história de seu pai, para o qual o acertado teve valor, ele não a consegue. Apesar de acertado. Mas sim apenas sua irmã, Lia. 

Não há claros compromissos num mundo de vaidades. As razões dos homens são pessoais e ocultas e escapam aos outros homens, pois repousam nas áreas sombrias das intenções.

Labão resgatou uma regra que omitira antes. Dão-se sempre como esposas as mais velhas.

 

Como seu pai, no entanto, Jacó aceita tudo. Mas ele aceita porque tem a consciência da busca do sagrado. Sempre. Assim, se desloca de forma contínua entre o mundo dos sonhos, o de Deus, e este mundo. Vendo Deus, sempre, no mundo.

Jacó se move como se se deslocasse, para cima e para baixo, numa escada que unisse o mundo da redenção a este mundo de vaidades. Seu objetivo é Raquel, e o é por entende-la “formosa”, isto é, fisicamente linda, mas também o é por ter sido esta a determinação de seu pai Isaac, e vontade de Deus.

Por qual das duas razões ele se move? Qual é a razão decisiva?

Jacó se movimenta pela segunda: é a palavra de Isaac a palavra de Deus.“Torna-te à tera dos teus pais, e à tua a parentela, e eu serei contigo” (Gn 31:3)

A beleza de Raquel é efêmera, aparente. O desejo que ela suscita é transitório. Mas o compromisso com Deus, que está ali contido, naquele amor, é superior a tudo. Então não é por ela que serve a Labão por sete anos. Mas por Deus.

Assim, Jacó vive o mundo e Deus como tensão contínua. Muito mais inquieto que seu pai, guarda-se, no entanto, da entrega ao mundo. Não é a transitoriedade que busca, os seus deuses mortais, mas o retorno à terra prometida, que lhe foi dada por herança. Esta não é sopro de vento, mas Verdade.

Ele não se ilude com o mundo. Nada que ali exista pode move-lo de forma absoluta. Enxerga o mundo com a realidade e tamanho próprios do mundo.

E tem a Deus como a grandeza maior, que explica a ele a realidade. Subir por essa escada todo dia, toda hora, todo minuto, todo segundo e desce-la, sem se contaminar pelas ilusões da vaidade: assim caminha Jacó. 

E, por fim, quando chega em seu coração a vontade de Deus, retorna para sua terra de salvação, para a salvação de sua alma. E de seus descendentes. 

Mas a escada continua ali? Certamente, cotidianamente, por todos os dias e minutos e segundos da vida. 

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